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A reforma agrária chilena antes de Allende: um legado de mercado e justiça social
Para entender a reforma agrária do governo de Salvador Allende (1970-1973), é fundamental situá-la no contexto histórico anterior. Desde a década de 1960, o Chile já vinha implementando reformas agrárias sob governos social-democratas e democratas-cristãos, com o objetivo de reduzir as desigualdades históricas na posse da terra, concentrada em poucas famílias latifundiárias. A reforma visava a justiça social, mas também incorporava elementos pragmáticos do mercado para garantir a produtividade agrícola e a estabilidade econômica.
O Instituto de Reforma Agrária (INDAP), criado em 1962[1], exemplificava essa abordagem: promovia a modernização técnica e o crédito aos pequenos agricultores, estimulando-os a produzir no mercado. Essa combinação de justiça social com mecanismos de mercado já demonstrava que a esquerda chilena buscava soluções econômicas que não descartassem a economia de mercado, mas a usassem para promover desenvolvimento e inclusão.
A chegada de Allende e a intensificação da reforma agrária
Eleito presidente em 1970, Salvador Allende, um socialista comprometido com a transformação estrutural do país, aprofundou a reforma agrária. Seu governo acelerou a expropriação de latifúndios e a entrega de terras a camponeses e trabalhadores rurais organizados em cooperativas. O objetivo era não só a redistribuição da terra, mas também a criação de uma nova base produtiva para a agricultura chilena, que fosse ao mesmo tempo justa e eficiente.

Para isso, Allende promoveu uma estratégia peculiar: embora a expropriação fosse feita pelo Estado, a produção agrícola deveria se manter inserida no mercado, com os agricultores vendendo seus produtos, sobretudo alimentos básicos, para abastecer o país. A ideia era que a reforma garantisse o acesso à terra e a uma produção digna, mas sem romper com a lógica de oferta e demanda, que incentivaria a produtividade e a inovação.
O papel das cooperativas e a economia de mercado
Um exemplo emblemático foi a organização das cooperativas agrícolas, que receberam terras e crédito para investir[2] em tecnologias modernas, como tratores e fertilizantes. Essas cooperativas funcionavam como unidades econômicas autônomas, vendendo seus produtos no mercado nacional e até exportando. O Estado atuava como um facilitador e regulador, não como controlador direto da produção, o que mostrava um compromisso com o mercado como motor da agricultura.
Essa combinação entre reforma agrária e economia de mercado era inédita no cenário latino-americano da época, onde muitas reformas optavam por modelos mais centralizados e estatizantes. No Chile de Allende, o mercado não foi abandonado; ao contrário, buscou-se integrá-lo a um projeto social-democrata que visava igualdade e crescimento.
A experiência da “Vía Chilena al Socialismo” e seu pragmatismo econômico
Allende defendia publicamente a “Vía Chilena al Socialismo”[3], uma estratégia pacífica e democrática para construir uma sociedade mais justa, sem rupturas violentas. Dentro dessa perspectiva, a reforma agrária e a modernização agrícola deveriam ser feitas com respeito às leis do mercado, para manter a estabilidade econômica e conquistar apoio político.
Por exemplo, o governo procurou negociar com os proprietários rurais a indenização pela terra, financiada pelo Estado, e evitar rupturas traumáticas que pudessem gerar desabastecimento ou fuga de capitais. Embora houvesse resistência e conflitos, a tentativa era combinar justiça social com responsabilidade econômica.
A modernização agrícola e o investimento estatal seletivo
Ao mesmo tempo, o Estado investiu em infraestrutura rural, assistência técnica e crédito para os pequenos agricultores, entendendo que a produtividade era essencial para o sucesso da reforma. Mas esses investimentos eram feitos para que os beneficiários atuassem no mercado, vendendo seus produtos e gerando renda, não para criar um sistema agrícola estatal e fechado.
Uma lição histórica sobre a combinação entre esquerda e capitalismo
A reforma agrária do governo Allende exemplifica como a esquerda social-democrata pode dialogar com a economia de mercado para promover mudanças sociais profundas. Ao modernizar a agricultura combinando redistribuição de terras, cooperativismo e inserção no mercado, Allende buscou um caminho pragmático, democrático e produtivo.
Embora o golpe militar de 1973 tenha interrompido essa experiência, o Chile deixou um legado único: um modelo de reforma agrária que não rejeitava o mercado, mas o usava como instrumento para justiça social e desenvolvimento. Essa história mostra que esquerda e capitalismo de mercado podem se encontrar em projetos econômicos coerentes e inovadores.
Anecdota histórica: a “Caravana da Reforma”
Em 1972, para divulgar e consolidar a reforma agrária, cooperativistas e pequenos agricultores organizaram a “Caravana da Reforma”, uma viagem por várias regiões rurais do Chile para mostrar os avanços e mobilizar apoio popular. Essa iniciativa combinava ativismo político com evidências concretas de que a reforma estava criando novas oportunidades econômicas, reforçando a ideia de que justiça social e mercado podiam andar juntos.
Dica para entusiastas da história econômica
Para aprofundar o estudo sobre a reforma agrária chilena de Allende, vale a pena consultar documentos do Instituto de Reforma Agrária e arquivos do Banco Central do Chile da época, que trazem dados sobre produção agrícola, investimentos e impacto social. Esses materiais revelam como a economia de mercado foi fundamental para o projeto social-democrata de modernização rural.
Outra curiosidade: o papel do Banco Mundial
Curiosamente, durante os anos 1960 e início da década de 1970, o Banco Mundial apoiou programas de reforma agrária no Chile[4], financiando projetos de modernização rural que incentivavam o mercado agrícola. Isso mostra como a reforma chilena dialogava com organismos internacionais e práticas econômicas globais, reforçando seu caráter pragmático e híbrido entre esquerda e capitalismo.


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Referências
- Paul W. Drake, "Socialism and Populism in Chile, 1932-1952", University of California Press, 1985
- Peter Winn, "Weavers of Revolution: The Yarur Workers and Chile's Road to Socialism", Oxford University Press, 1986
- Fernando Leiva, "La Vía Chilena al Socialismo: Estrategias y desafíos", Ediciones Universidad de Chile, 2010
- Banco Mundial, "Chile: Rural Development and Agrarian Reform Report", 1971 https://documents.worldbank.org/en/publication/documents-reports/documentdetail/1971
